quarta-feira, 30 de julho de 2025

Um olhar ao espelho

Não gosto de pessoas que falam alto. Não gosto de gritos. Não gosto de berros. Não gosto dessa mania de achar que o volume da voz é diretamente proporcional ao peso da razão. Há quem grite para se fazer ouvir, há quem berre para parecer que sabe, há quem fale alto para abafar o vazio que traz por dentro. A mim, incomoda. A mim, fere. A mim, afasta. Porque acredito, com tudo o que sou, que há silêncios que dizem mais do que mil frases disparadas em modo metralhadora. Acredito que o silêncio, quando bem colocado, pode ser mais certeiro do que qualquer grito. E, mesmo assim, mais educado. Mais digno. Mais humano. Não é preciso falar alto para ter razão. Aliás, quem tem mesmo razão, quase nunca precisa de aumentar o tom. Fala baixo, porque sabe o que diz. Fala sereno, porque não tem de provar nada. Fala simples, porque a verdade não grita. E quando o outro começa a gritar, eu desligo. Simples. Paro de ouvir. Corto o som, fecho a porta, desisto do diálogo. Porque não suporto. Não suporto essa agressão sonora disfarçada de opinião forte. Não suporto quem confunde intensidade com barulho. Não suporto quem acha que se impõe por gritar mais alto. Há quem precise do grito para existir. Eu existo no silêncio. E quando não respondo, não é por não ter resposta — é por ter respeito. Quando me calo, não é por desistência — é por escolha. Quando me afasto, não é fraqueza — é defesa. Porque o que vem aos berros, eu deixo ficar à porta. E sigo. Em silêncio. Mas bem longe.

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