terça-feira, 8 de julho de 2025

Na praia

Bem... Vamos lá contar a minha situação constrangedora da praia. Personagens principais ? Os meus filhos. Vedetas do areal. Decidi, contra todas as probabilidades e sinais do universo, levar os meus dois filhos à praia. O Henrique com 10, já com ironia nos olhos e uma maturidade sarcástica. O Santiago com 5, energia infinita, corpo de polvo e alma de bailarino. Mal estendemos as toalhas, chegaram ELES. Três gorilas de tronco nu, mais peludos que um tapete do século XIX. Geleira azul. Minis. Um rádio de pilhas que devia ter saído diretamente do baú da Rádio Comercial dos anos 80. Ligaram a cassete. Sim, cassete. Volume máximo. Estavam à vontade, no mundo deles: – “Aperta com elaaaa, …” – “Ela lê gusta lá gasolinaaaa!” E ali estavam eles, sentados no meio da areia, a comer frango assado do Pingo Doce com as mãos, a avaliar todas as mulheres que passavam como se fossem jurados do Portugal Got Pimbalhada: – “Esta parece um Cadillac… mas estampado contra o poste!” – “Aquela ali é um camião TIR... sem carga mas com traseira!” Eu ali, calada, a tentar manter os meus olhos dentro da cabeça. Foi quando o Santiago decidiu que o momento merecia coreografia. Levanta-se no meio da toalha, começa a dançar ao som da pimbalhada, rodopiar, abanar os ombros, agitar os braços como se estivesse possuído pelo espírito do Quim Barreiros. E os pezinhos, ai os pezinhos. Sem querer , ou talvez com a bênção de algum anjo rebelde , começaram a lançar areia diretamente para cima dos senhores, precisamente quando eles mastigavam a parte mais suculenta do frango. Fingi nem ouvir as reclamações." Sou surda, sou suuuuurda"- tentei convencer -me . Areia nas pernas. Areia na geleira. Areia no peito cabeludo do líder da alcateia. Eu? Com o terço imaginário na mão. A repetir mentalmente: – Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco… Senhor, se me deres forças para não gritar, eu prometo tentar ser boa pessoa até ao fim do dia. O Henrique, sentado com o livro, murmura: – Mãe… abriram as portas do zoo? Ou foi do hospício? Falta muito para ir embora ? Eis então que entra a personagem principal do terceiro ato: A Senhora do Topless. Estende a toalha mesmo à nossa frente. Tira o biquíni de cima com a classe de uma vedeta de cabaré reformada. Os seios? Um apontava para Setúbal, o outro estava a flertar com a axila. Ambos com expressão de fadiga acumulada. O Santiago para. Olha. Inclina a cabeça. Analisa. Eu estremeço. – Mãe… a senhora tem as maminhas à mostra- grita. Juro que me pareceu que todo ruído da praia se calou. (pausa filosófica) – É porque são compridas? Eu… morta. Por dentro. E o pior? Não ficou por aí. O meu filho, abençoado por Deus e sem noção estética nenhuma, apanha duas algas secas, com areia e cheiro a bacalhau morto, e caminha até à senhora. Muito sério: – Pode pôr isto nas maminhas. Assim já não assusta ninguém. Ela ri. Eu rezo mais uma Avé Maria. Os gorilas quase engasgam com o frango. Um deles diz: – Este miúdo é o Fernando Rocha em criança! Mais piadas de gosto duvidoso. Mais análises de traseiros femininos. Um dizia: – “Olha aquela! Mais enchimento que o meu sofá!” Outro: – “Esta aqui é boa. De saca na cabeça !” - e riam tanto que cheguei a ficar enjoada Até que... o guarda da praia ( sei lá eu quem era ) aparece. Vê o cenário: – Rádio antigo em volume de rave – Ossos de frango na areia – Cervejas soltas – Criança a dançar – Mamas soltas – Eu, com cara de Nossa Senhora de Fátima a meio de uma aparição Resultado? Música OFF. Frango recolhido. Senhora vestiu o biquíni com a dignidade de quem percebeu que o público era demasiado exigente. E nós? Ficámos. A rir. Eu de nervos . A comer fruta que já sabia a vapor. E a viver mais uma página gloriosa do livro: “Ser mãe dos meus filhos é um desporto de alto risco com medalha de sobrevivência emocional”.

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