quinta-feira, 20 de março de 2025
A alma
A alma rejeitada se lembrará da rejeição. Não como um simples eco distante, mas como uma cicatriz que se entrelaça à sua essência, moldando seus medos, seus desejos, sua forma de amar e de se relacionar. A dor de não ser aceito não desaparece com o tempo. Ela se dissolve lentamente, vida após vida, até ser compreendida, acolhida e, por fim, transmutada.
Aquele que foi deixado de lado em uma existência, muitas vezes retorna em outra carregando um vazio que não sabe nomear. A criança que nasce sentindo-se indesejada, o irmão que se percebe deslocado, o coração que busca incessantemente por um amor que nunca chega. São fragmentos de um passado ainda latente, cicatrizes espirituais que não podem ser vistas, mas que se manifestam na alma, trazendo consigo um convite silencioso à cura.
A rejeição é uma das dores mais profundas que o espírito pode carregar. Porque ser rejeitado não é apenas não ser aceito pelo outro. É ter sua existência negada, sua essência ignorada, sua presença invalidada. É sentir-se invisível, como se o próprio direito de existir fosse uma falha. A alma rejeitada, ao reencarnar, muitas vezes traz consigo a necessidade de provar seu valor, de ser reconhecida, de ser amada, mesmo sem compreender de onde vem essa sede insaciável.
Mas a vida, em sua infinita misericórdia, não nos condena a carregar eternamente as dores do passado. Cada reencontro é uma chance de ressignificar. Cada laço é uma oportunidade de curar o que ficou inacabado. Se hoje sentimos a dor da exclusão, talvez a vida esteja nos chamando a olhar para dentro, a nos aceitar primeiro, a nos reconhecer além da necessidade de aprovação externa.
Porque a verdadeira libertação não está em ser acolhido pelos outros, mas em se acolher. Não está em buscar desesperadamente um lugar para pertencer, mas em compreender que já pertencemos ao universo. A alma rejeitada se lembrará da rejeição, mas cabe a ela decidir se será prisioneira dessa dor ou se usará essa lembrança como portal para a sua própria transformação. E quando a cura finalmente acontecer, essa mesma alma aprenderá a incluir, a amar sem condições e a ser a luz que um dia lhe faltou.
A rejeição pode ser um eco de vidas passadas, um laço kármico que se repete até que seja compreendido e curado. Se você sente que carrega essa dor sem explicação, talvez sua alma esteja tentando te lembrar de algo.
Eu
Eu, que sou mais revelado pelo que não falo do que escondido pelo que digo, que tenho no silêncio da consciência tranquila minha melhor companhia.
Eu, que me alimento de frutos de fogo e bebo os mares da tranquilidade lunar para sobreviver entre as feras que escaparam de suas jaulas douradas e estão a espreita para nos devorar a qualquer momento.
Eu, cujo luz brilha na copa das árvores das serras azuis e brandas que tremulam no horizonte anunciando a relevância do dia e o terror da noite.
Eu, que tenho a sombra ainda bailando oculta entre os cabelos dela que se foi para um reino cuja a rainha será deposta em breve.
Eu, que preferia viver numa torre de marfim a ter que conviver com essa escória de notas musicais desafinadas, do que ser visto como ameaça ao invés de ser percebido como solução.
Eu, que fui mutilado pela máquina de moer futuros e tive alguns dos meus dedos decepados pelas suas engrenagens metálicas, que tive minhas janelas quebradas pelas pedras da miséria e que tive todas minhas portas trancadas pela revolução dos desinteressados em história.
Eu, que bebi veneno pensando ser antidoto, que edifiquei meu lar no alto da montanha sem saber que lá era a boca de um vulcão, que mudei de nome para ser menos conhecido porém mais lembrado.
Eu, que escrevo como única solução para escapar do campo magnético deste planeta.
(Guilherme Ortiz – Ou um pedaço da minha alma corsária que já não encarna mais em corpo nenhum)
terça-feira, 18 de março de 2025
Perdoar
Quando alguém nos mágoa ou nos fere ficamos muito tristes e até revoltados…
Devíamos lembrar que uma ostra que não foi ferida não produz pérolas.
Pérolas são produtos da dor, resultados da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior das ostras, como um parasita ou um grão de areia.
Na parte interna da concha é encontrada uma substância chamada nácar.
Quando o grão de areia penetra as células do nácar, estas começam a trabalhar e a cobrir o grão com camadas para proteger o corpo indefeso da ostra. Como resultado, uma linda pérola vai se formando ali no seu interior.
Uma ostra que nunca foi ferida nunca vai produzir pérolas, pois a pérola é uma ferida cicatrizada.
Você já se sentiu ferido pelas palavras rudes de alguém?
Já foi acusado de ter dito coisas que não disse?
Já foi incriminado sem nada ter feito?
Suas ideias já foram rejeitadas ou mal interpretadas?
Já sentiu duros golpes de preconceito?
Já recebeu o troco da indiferença?
Conseguiu perdoar?
Então você produziu uma pérola.
Cubra suas mágoas com várias camadas de amor.
Infelizmente, são poucas as pessoas que se interessam por esse tipo de sentimento.
A maioria aprende apenas a cultivar ressentimentos, deixando as feridas abertas, alimentando-as com sentimentos pequenos, não permitindo que cicatrizem.
Assim, na prática, o que vemos são muitas “ostras vazias”, não porque não tenham sido feridas, mas porque não souberam perdoar, compreender e transformar a dor em amor.
Perdoar é uma arte!!!
Encontros
Há encontros que a vida tece com fios invisíveis, ligando almas que um dia se enfrentaram em batalhas silenciosas. Onde antes houve mágoa e ressentimento, agora o destino une novamente, não mais como adversários, mas como família. Porque chega um momento em que o espírito, cansado de lutar, deseja apenas se reconciliar. E então, pela misericórdia divina, aqueles que se feriram renascem ligados pelo laço sagrado do lar.
Ontem inimigos, hoje irmãos.
Ontem algoz e vítima, hoje pai e filho.
Ontem perseguidor e perseguido, hoje marido e mulher.
A justiça divina não pune, reequilibra. A sabedoria do Criador transforma rancor em aprendizado, devolvendo a cada um a chance de amar onde antes só havia dor. Mas as marcas do passado não se apagam com o esquecimento do corpo. Muitas vezes, o ressentimento silencioso se manifesta na falta de afinidade, nos conflitos constantes, na rejeição sem explicação.
Por que minha relação com minha mãe é tão difícil? Amo-a, mas dentro de mim há uma resistência que não sei de onde vem. Meu irmão e eu brigamos desde sempre, mesmo depois de adultos, como se disputássemos algo que desconhecemos. Casei-me por uma paixão intensa, mas hoje restam apenas atritos e cobranças. Meu filho mais novo é meu refúgio, mas com o mais velho há um abismo. Não consigo demonstrar carinho, e ele, por sua vez, me ignora.
A vida não une por acaso. Cada laço traz uma chance de cura. Se hoje enfrentamos desafios nos relacionamentos mais próximos, talvez seja a alma pedindo reconciliação. Porque o que hoje machuca pode se tornar o amor de amanhã. A verdadeira reparação acontece no esforço de permanecer, de compreender e, acima de tudo, de perdoar.
Ser avó
Ser avó é um reencontro sagrado, um abraço da eternidade que entrelaça almas já ligadas por fios invisíveis do destino. É sentir, no toque aveludado de uma mãozinha curiosa, a mesma ternura de um filho que um dia embalamos em outras vidas, sob outros céus. É reviver um amor antigo, com a doçura da experiência e a serenidade de quem já aprendeu que os laços verdadeiros não se rompem com o tempo, apenas se transformam.
No instante em que um neto chega ao mundo, o coração da avó pulsa diferente, como se reconhecesse um segredo que o tempo tentou esconder. Há um brilho ancestral no olhar daquela criança, um eco de risos compartilhados em existências passadas. No aconchego do colo da avó, o pequeno se aninha como se soubesse, instintivamente, que ali sempre foi seu refúgio. E talvez saiba, pois os espíritos que se amam reencontram-se como rios que correm para o mesmo oceano, independente das margens que os afastaram um dia.
Ser avó é amar sem urgência, sem a inquietação dos anos juvenis. É olhar para o presente e enxergar as pegadas do passado, compreendendo que a vida nos dá a dádiva de cuidar de novo daquele que já fez morada em nossos braços. É sentir um aperto doce no peito ao perceber que esse reencontro pode ser a última chance, nesta jornada, de aconchegar o espírito que um dia chamamos de filho. Mas, ao invés de dor, há gratidão – porque o amor, quando verdadeiro, nunca se despede, apenas muda de forma, à espera do próximo abraço além do véu da matéria.
O tempo pode levar rostos, mudar nomes e distanciar histórias, mas jamais separa aqueles que se pertencem na imensidão do universo. A avó que embala um neto no colo sente no peito uma promessa silenciosa: a de que, um dia, em um novo amanhecer da eternidade, os mesmos olhos voltarão a se encontrar, e os mesmos corações baterão juntos, ao compasso do amor imortal.
Hecate
Hecate, Deusa das Bruxas
Deusa de toda a Magia
Hécate era uma divindade nocturna, da vida e da morte. Era chamada de “A Mais Amável”, “Rainha do Mundo dos Espíritos”, “Deusa da Bruxaria”.
Era a mais antiga forma grega da Deusa Tríplice, que controlava o Paraíso, o Submundo e a Terra.
É uma Deusa tricéfala grega, Deusa da Lua Minguante, guardiã das encruzilhadas, senhora dos mortos e rainha da noite. Ela era homenageada com procissões em que se carregavam tochas e oferendas para as conhecidas "ceias de Hécate".
É conhecida como uma Deusa "escura" por seu poder de afastar os espíritos maléficos, encaminhar as almas e usar sua magia para a regeneração. Invocava-se a sua ajuda em seu dia (13 de Agosto) para afastar as tempestades que poderiam prejudicar as colheitas.
Especialmente para os trácios, Hécate era a Deusa da Lua, das horas de escuridão e do submundo. Parteiras eram ligadas a ela. Era conhecida entre as Amazonas como a Deusa da Lua Nova, uma das três faces da Lua e regente do Submundo.
A lenda não é clara quanto à sua origem. Alguns mitos dizem que Hécate era filha dos titãs Tártaros e Noite; outras versões dizem ser de Perseus e Astéria (Noite-Estrelada), ou de Zeus e Hera. Sabemos que seu culto não se originou na Grécia. Lendas de Hécate eram contadas por todo o Mediterrâneo.
No início, Hécate não era uma Deusa ruim. Após a queda do matriarcado, os gregos a cultuavam como uma das rainhas do Submundo e governante da encruzilhada de três caminhos.
Um de seus animais sagrados era a rã, um símbolo da concepção. Era chamada de A Deusa das Transformações, pois regia várias passagens da vida, e podia alterar formas e idades. Outro animal sagrado era o cão.
Hécate era considerada como o terceiro aspecto da Lua, a Megera ou a Anciã (Portadora da Sabedoria). Os gregos chamavam-na de A Megera dos Mortos. Aliada de Zeus, ela era acompanhada por uma matilha de lobos.
Como aspecto da deusa Amazona, a carruagem de Hécate era puxada por dragões. Outros de seus símbolos eram a chave e o caldeirão. As mulheres que a cultuavam normalmente tingiam as palmas de suas mãos e as solas dos pés com hena. Seus festivais aconteciam durante a noite, à luz de tochas. Anualmente, na ilha de Aegina no golfo Sarônico, acontecia um misterioso festival em sua honra.
Essa era uma Deusa caçadora que sabia de seu papel no reino dos espíritos; todas as forças secretas da Natureza estavam sob o seu controle. Os gregos e trácios diziam que ela controlava o nascimento, a vida e a morte.
Hécate era considerada a patrona das sacerdotisas, Deusa das feiticeiras. Estava associada à cura, profecias, visões, magia, Lua Minguante, encantamentos, vingança, livrar-se do mal, riqueza, vitória, sabedoria, transformação, purificação, escolhas, renovação e regeneração.
Como Senhora da Caçada Selvagem e da feitiçaria, Hécate era a princípio uma divindade das mulheres, tanto para cultuar como para pedir auxílio, e também para temer caso alguém não estivesse com sua vida espiritual em ordem.
*Fonte: Herculano Pires*
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