terça-feira, 18 de março de 2025

Ser avó

Ser avó é um reencontro sagrado, um abraço da eternidade que entrelaça almas já ligadas por fios invisíveis do destino. É sentir, no toque aveludado de uma mãozinha curiosa, a mesma ternura de um filho que um dia embalamos em outras vidas, sob outros céus. É reviver um amor antigo, com a doçura da experiência e a serenidade de quem já aprendeu que os laços verdadeiros não se rompem com o tempo, apenas se transformam. No instante em que um neto chega ao mundo, o coração da avó pulsa diferente, como se reconhecesse um segredo que o tempo tentou esconder. Há um brilho ancestral no olhar daquela criança, um eco de risos compartilhados em existências passadas. No aconchego do colo da avó, o pequeno se aninha como se soubesse, instintivamente, que ali sempre foi seu refúgio. E talvez saiba, pois os espíritos que se amam reencontram-se como rios que correm para o mesmo oceano, independente das margens que os afastaram um dia. Ser avó é amar sem urgência, sem a inquietação dos anos juvenis. É olhar para o presente e enxergar as pegadas do passado, compreendendo que a vida nos dá a dádiva de cuidar de novo daquele que já fez morada em nossos braços. É sentir um aperto doce no peito ao perceber que esse reencontro pode ser a última chance, nesta jornada, de aconchegar o espírito que um dia chamamos de filho. Mas, ao invés de dor, há gratidão – porque o amor, quando verdadeiro, nunca se despede, apenas muda de forma, à espera do próximo abraço além do véu da matéria. O tempo pode levar rostos, mudar nomes e distanciar histórias, mas jamais separa aqueles que se pertencem na imensidão do universo. A avó que embala um neto no colo sente no peito uma promessa silenciosa: a de que, um dia, em um novo amanhecer da eternidade, os mesmos olhos voltarão a se encontrar, e os mesmos corações baterão juntos, ao compasso do amor imortal.

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