quarta-feira, 19 de novembro de 2025
Ciúme
Meu avô não falava de amor como quem ensina regras. Ele pousava as palavras como quem acende um candeeiro. Naquela tarde, enquanto o vento mexia as cortinas, perguntei sobre ciúme. Ele sorriu com a calma de quem já atravessou muitos invernos e disse que a insegurança não nasce do outro, mas do espelho que evitamos em nós. Quando um homem teme perder, é porque, por dentro, suspeita não ser inteiro o bastante para permanecer.
Entendi que amar não é vigiar, é reconhecer valor. Quem se sabe digno oferece abrigo e não grades. A confiança não cega, enxerga melhor: vê limites, honra escolhas, aceita que o coração do amado é um lugar sagrado onde não se entra de sapatos. O resto é ruído.
Desde então, rezo por uma coragem mansa: a de cuidar sem prender, de elogiar sem negociar, de aceitar os silêncios do outro sem interpretá-los como abandono. A maturidade afetiva é delicada como quem recolhe uma flor e a deixa no jardim, porque sabe que a beleza cresce intacta quando permanece em sua origem.
Se algum medo me visita, eu o sento à mesa e o escuto até que ele se dissolva. Então lembro do candeeiro aceso e do que meu avô me entregou sem alarde: amor não é prêmio que se conquista por vigilância. É presença que se renova quando duas liberdades escolhem, outra vez, permanecer.
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