quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Parir

Fui chamada a atenção aqui no privado por uma pessoa de bom coração. Ela disse que fica feio uma mulher como eu ficar falando que pariu uma banda. Falo sempre isso: “Pari uma banda”. Digo com orgulho e mais um tanto de sentimentos que têm as pessoas cujo útero é uma espécie de camarim. Pedi sugestões e ela: “fala que você deu a luz a uma banda e ainda pode brincar com esse negócio de luz no palco e bababá bububú." Daí, fiquei reflexiva. Nunca tinha pensado que essa palavra poderia gerar desconforto a ponto de sugerirem que eu parasse de usá-la. Me ensaiei falando: “dar a luz a três artistas”… Não… Não traduz o que sinto quando falo “Pari uma banda”. Comecei a refletir por que a pessoa achou feio, rude, grosseiro e se sentiu desconfortável ouvindo uma pessoa que ela admira falando que pariu. Há palavras mais elegantes, ela continuou: “dar à luz, gerar, trazer ao mundo… Parir, não. Parir parece coisa de bicho”. Quando ela falou isso, gostei mais ainda. Gosto tanto de bichos que nem consigo comê-los. Não me acho melhor do que eles. Me comparar a uma vaca, para mim, é elogio. Parir é forte. É verbo sem maquiagem. "Dar à luz" você imagina hospital, marido ao lado segurando a sua mão… epidural que é uma anestesia local para aliviar dor. Parir, não. Parir é primitivo. Imagino uma mulher na beira do rio, ou no hospital sem celular para registrar, parindo na cama que dorme, ouço o grito que dá a pessoa que põe gente no mundo, tem sangue, outra mulher ajudando,... Parir é uma batalha vencida por dentro. Uma não, várias. Parir, ainda que não seja sempre assim, parir é, talvez, o único ato em que uma pessoa sangra por amor e não porque foi ferida. Quem sabe seja por isso que assuste tanto. Porque parir é verbo que exige coragem até para ser dito. É biológico, animal, é sangue com neném, é lambeção de cria logo depois. Parir é poder demais para um verbo só. Ele não apenas nomeia um ato, ele entrega o protagonismo: quem pare, mete medo. Exige respeito. Não existe parto sem que forças do além estejam envolvidas e só essa pessoa sabe o que passou quando pariu. Dar a luz não. É coletivo. Todo mundo sabe como foi. Tem foto feita na hora que a luz foi dada. Mas olha... receba essa informação: Todo mundo foi parido - ainda que isso seja esquisito aceitar. Vou te contar uma verdade: A sua mãe te pariu. E isso não é ofensa. Isso quer dizer que houve uma história para você ter vindo ao mundo. Houve um ovo em que você esteve dentro. Esse ovo foi protegido, aninhado, ou não. Mas todo mundo aqui esteve dentro de um ovo. Peço perdão para quem se incomode, mas entre “dar à luz para três artistas” e “pari uma banda”, fico com a segunda porque nunca vi ninguém parir sem medo e, ao mesmo tempo, sem força. Nunca vi ninguém parir em silêncio. E quando eu falo que foi um parto, saibam que no dia em que, individualmente, pari cada componente desta banda, fiz isso sem marido para segurar a minha mão, com um medo e uma ansiedade que jamais tive igual. Mas ao mesmo tempo... Mas ao mesmo tempo com a certeza de que o mundo seria melhor depois daquilo que estava passando e eu ia provar isso. Se hoje vejo gente - muita gente e cada vez mais gente - se emocionando com Hideo, Nara e Yuki no palco foi porque eu pari essa banda. Pari sim. Fui eu. Esse sentimento ninguém vai me tirar. Não há palavra que chegue mais perto disso do que o verbo que considero visceral: parir. Mais alguém sentiu incômodo? Fiquei curiosa de verdade. Estou reflexiva, mas seguirei do mesmo jeito me sentindo fêmea, rainha e mitológica. Adianto: também sei rosnar e coçar a orelha com a pata de trás.

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