segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
Raízes
Corta a raiz de uma árvore, e as folhas murcharão. Contudo, as pessoas costumam tentar o corte das folhas. Essa não é a maneira; assim a raiz não pode murchar. Pelo contrário, se cortas as folhas, mais folhas virão à árvore; se cortas uma folha, três folhas virão, porque, com o corte das folhas, as raízes tornam-se mais ativas, a fim de proteger a árvore. Por isso, todo jardineiro sabe como tornar uma árvore densa e espessa - é só podá-la. Ela se tornará cada vez mais espessa, espessa, espessa, porque lançaste um desafio às raízes: cortas uma folha e as raízes enviarão três para proteger o corpo da árvore, porque as folhas são a superfície do corpo das árvores.
As folhas não existem para teu prazer, para que as contemples e te sentes à sua sombra; não; as folhas são a superfície do corpo da árvore. Através das folhas, a árvore absorve os raios do sol, através das folhas a árvore libera vapor, através das folhas a árvore entra em contato com o cosmos. As folhas são a pele da árvore. Cortas uma folha, e as raízes aceitam o desafio: mandam três para substituí-la, tornam-se mais alertas, não podem permanecer adormecidas. Alguém está tentando destruir a árvore e elas têm de protegê-la - o mesmo acontece em relação à vida, porque a vida também é uma árvore.
Possui raízes e folhas. Se cortas a cólera, três folhas virão substituí-la e ficarás três vezes mais colérico. Se cortas o sexo, ficarás anormalmente obcecado pelo sexo. Corta qualquer coisa e observa como aquilo vai te acontecer três vezes mais. E a mente dirá: - “Corta mais, não foi o bastante!” Então, cortarás mais e mais terás por esses cortes - cairás em um círculo vicioso. E a mente continuará a dizer: - “Corta mais, ainda não foi o bastante.” Por isso é que tantas folhas estão aparecendo. Podes cortar todos os ramos, mas não fará diferença, porque a árvore existe na raiz, não nas folhas.
Tantra diz para não tentares cortar as folhas - cólera, ganância, sexo, não te preocupes com eles, é tolice. Procura a raiz e corta a raiz - a árvore murchará por si mesma, espontaneamente. As folhas desaparecerão, os ramos desaparecerão, simplesmente porque cortaste a raiz.
A identificação é a raiz e tudo o mais nada é senão folhas. Estar identificado com a ganância, estar identificado com a cólera, estar identificado com o sexo - isso é a raiz. E lembra-te: tanto faz estares identificado com a ganância, ou com o sexo, ou mesmo com a meditação. Amor, Moksha, ou Deus, não faz diferença; é a mesma identificação. Estar identificado é a raiz; tudo o mais não passa de folhas. Não cortes as folhas, deixa-as, nada há de errado com elas.
Por isso é que Tantra não acredita em melhorar o teu caráter. Melhorar teu caráter é apenas dar-te uma boa forma - se podares uma árvore, ela poderá tomar a forma que lhe quiseres dar, mas permanecerá a mesma. O caráter é apenas a forma externa - ele pode mudar, mas tu permaneces o mesmo, não acontece a transmutação. Tantra vai mais ao fundo, e diz: - “Corta a raiz!” Por isso é que Tantra se vê tão mal compreendido - porque Tantra diz: - “Se és ganancioso, sê ganancioso; não te incomodes com a ganância. Se és sexual, sê sexual, não te incomodes absolutamente com isso.” A sociedade não pode tolerar um ensinamento assim. - “Que esta gente está dizendo? Vão criar o caos. Destruirão toda a ordem.” Mas não entenderam que só Tantra pode modificar a sociedade, o homem, a mente - nada mais o pode; que só Tantra trará a verdadeira ordem, a ordem natural, um florescimento natural da disciplina interior, nada mais do que isso. Mas esse é um processo muito profundo - precisas cortar a raiz.
Observa a ganância, observa o sexo, observa a cólera; a dominação, o ciúme. Uma coisa deve ser lembrada: não te identifiques; simplesmente observa, torna-te um espectador. Gradualmente, a qualidade de testemunha cresce e passas a ser capaz de notar todas as nuances da ganância. São muito sutis. Passas a ser capaz de ver o quanto são sutis as funções do ego, como são sutis suas formas. Não é uma coisa grosseira. É muito sutil e delicada e profundamente oculta.
Quanto mais observares, mais teus olhos se farão capazes de ver, mais perceptivos se tornarão e, quanto mais vires, mais profundamente caminharás e maior distância se estabelecerá entre ti e aquilo que fazes. A distância ajuda porque, sem distância, não pode haver percepção. Como podes distinguir uma coisa que está demasiado próxima? Se estiveres muito próximo a um espelho, não poderás ver teu reflexo. Se teus olhos estiverem tocando o espelho, como poderás ver? Uma distância é necessária. E nada pode dar-te distância, a não ser o testemunho. Tenta e verás.
Dirige-te ao sexo; nada haverá de errado nisso, desde que permaneças um observador. Observa todos os movimentos do corpo, observa a energia fluindo para dentro e para fora, observa como a energia vai descendo, observa o orgasmo, o que acontece durante o orgasmo, como os dois corpos se movem ritmadamente, observa as batidas do coração - cada vez mais rápidas - e o momento em que parecem enlouquecidas. Observa o calor do corpo, o sangue circulando mais. Observa a respiração, que se faz louca e caótica. Observa o momento em que tua vontade extravasa seus próprios limites e tudo se torna involuntário. Observa o momento em que poderias ter voltado, mas para além do qual não há retorno. O corpo se torna tão automático para além do qual não há retorno. O corpo se torna tão automático que qualquer controle é impossível. Exatamente no instante anterior à ejaculação, tu perdes o controle, o corpo domina.
Observa o processo voluntário e o processo não-voluntário. O momento em que tens o controle e poderias voltar - o retorno era possível -, e o momento em que não podes voltar, o retorno tornou-se impossível - agora o corpo dominou completamente, perdeste o controle. Observa tudo; e há milhões de coisas a observar. Tudo é tão complexo e nada é mais complexo do que o sexo, porque ele envolve o corpo e a mente - só a testemunha não se envolve; só uma coisa permanece sempre de fora.
A testemunha é um estranho. Por sua própria natureza, a testemunha nunca pode tornar-se alguém que está de dentro. Procura essa testemunha e, então põe-te no topo da colina: tudo se passa no vale, sem que tenhas a menor participação. Simplesmente vês: que tens com aquilo? É como se tudo se estivesse passando com uma outra pessoa. O mesmo acontece com a ganância e com a cólera: são muito complexas. E apreciarás, se puderes observar, o negativo, o positivo, todas as emoções. Lembra-te, simplesmente, de uma cois: tens que ser um observador, porque, então, a identificação se romperá, então a raiz será cortada. E, desde que a raiz é cortada, de vez que descubras que não és aquele que atua, tudo se modifica de repente. E a modificação é súbita, não há graduação nela.
Corta a raiz da árvore e as folhas murcharão;
corta a raiz da tua mente e samsara tomba.
No momento em que cortes a raiz da mente, a identificação, a samsara, tomba com ela, todo o mundo se desmorona como um castelo de cartas. Basta uma pequena brisa de consciência, e toda a casa cai. De súbito, ali estás; não mais no mundo pois transcendeste. Podes viver da mesma maneira antiga, fazendo as antigas coisas, mas nada será antigo, porque tu já não és antigo. És um ser perfeitamente novo - isso é um renascimento. Os hindus o chamam dwij, duas vezes nascido. Um homem que a isso chegou é duas vezes nascido; a Iluminação é um segundo nascimento: é o nascimento da alma. Isso é o que Jesus quer dizer quando fala em ressurreição. A ressurreição não é o renascimento do corpo, é um novo nascimento da consciência.
corta a raiz da tua mente, samsara tomba.
A luz de qualquer lâmpada dissipa, num momento,
as trevas de longos kalpas [longas eras, milênios];
Assim, não te preocupes em saber como a luz súbita poderá dissipar as trevas de tantos, tantos milhões de vidas. Dissipa-as porque as trevas não têm densidade, não têm substância. Por um momento, ou por milhares de anos, é o mesmo. A ausência não aumenta, nem diminui; a ausência permanece a mesma. A luz é substancial, é algo, mas as trevas são apenas uma ausência. A luz surge e as trevas já desapareceram.
Não que as trevas se tenham, realmente, dissipado, porque nada há para ser dissipado. Não que, quando acendas a luz, as trevas desapareçam - nada há para desaparecer. Na verdade, nada havia, só ausência de luz. A luz vem e as trevas já não existem.
Osho.
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