sábado, 30 de março de 2024
As mãos
Eu vi as mãos do médico apalpando o corpo envelhecido de um doente.Mãos longas e
finas, que talvez jamais tenham segurado um cabo de enxada, um serrote ou mesmo um
martelo ou qualquer instrumento semelhante. Suas mãos me pareceram radares tentando
detectar presenças indesejáveis. Impressionou-me a sutileza com que o fazia, os dedos
tranqüilos deslizando por cada parte daquele corpo que se deixava manipular depois de
tantos dias em sofrimento em um leito de hospital. Agora, em casa, ainda debilitado, o
amigo acorreu solícito e sem alarde.
Chegou com os primeiros raios do sol da manhã. Saiu, deixando uma certa paz nos
corações dos que amavam aquele enfermo.
Deixando uma imensa gratidão no íntimo de todos da casa.
Sei que este médico, durante longos anos, trabalhou em um hospital público, sempre
passando para os clientes um pouco de sua aura luminosa.
Ali, antes de aposentar-se, um tanto a contragosto, ele desfrutava da alegria de estar lidando
com os mais pobres, os muito pobres; enfermos crucificados pelas mãos do poder
insensível.
O fato presenciado levou-me a refletir sobre o papel decisivo que as mãos exercem no
destino da humanidade.
Há mãos que alimentam, que plantam, cozinham, que curam, que amenizam a dor, que
oram, se unem em preces pelos homens, pela paz, pelo fim da miséria e da guerra, para que
os “empresários” dos conflitos sangrentos possam olhar com mais elemência para os
desvalidos que nascem, vivem (?) e morrem nas ruas, para que suas armas disparem flores e
pão, deixando de lado sua natural utilidade- diria melhor, inutilidade, no mínimo.
Sim, as mãos são instrumentos para o bem e para o mal.
Felizes aqueles que sabem fazer bom uso delas, como o médico que suscitou estas
reflexões.Ele entrou na casa do enfermo, com expressão afável, mas sem muitos sorrisos;
com aquele ar difícil de ser verbalizado; mistura de amor fraterno, zelo profissional,
cuidado em não se mostrar muito alegre, sabendo que ia deparar-se com o sofrimento, não
sei... È freqüente, todavia, ele me transmitir este algo que não consigo identificar
plenamente, mas que acalma, consola, acalenta e reanima.
Enfim, uma presença amiga tem sempre uma grande carga positiva. Muitas pessoas já
disseram isto. Também muitas pessoas jamais a sentiram. Às vezes, é tão simples; um
sorriso, uma demonstração de afeto ou de solidariedade...
Atitudes aparentemente pequenas podem erguer o moral de quem atravessa momentos
difíceis ou- o que é pior- dos que vivem em permanentes momentos difícies.
Sei lá, mas tenho para mim que as mãos orantes têm permitido que o mundo não
desmorone de vez. Isto, penso eu. Em regiões como a Bósnia ou o Líbano, as pessoas já
sentem que o mundo desmoronou, já perderam suas perspectivas, suas metas, as vidas de
parentes e amigos, suas casas, o pão cotidiano...Tanta coisa...
Insistimos, porém, apesar das imagens dolorosas que os meios de comunicação nos
transmitem, em fazer de nossas mãos fontes de calor para os que se congelam em todos os
sentidos.
As mãos do médico, com quem estive ontem, são um modelo de carinho, de afeto, de boa-
vontade...Se todas as mãos fossem como as dele...!
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